Paula Menezes: Guided By Love

September 06,2017

Todos que me acompanham na Abraf sabem da minha entrega a esta causa. Por mais difícil (algumas vezes, quase impossível) que seja conciliar toda a minha rotina, pessoal e profissional, com a Abraf, sempre que me proponho a realizar um projeto da Abraf, mergulho de cabeça. E, com o Team PHenomenal Hope Brasil, não foi diferente.

Everyone who follows me in Abraf realizes how much energy I put into this cause. Even being so hard (sometimes, almost impossible) to handle with my routine, personal and professional, and Abraf, everytime I decide to lead a project in Abraf, I go deep in it. And, with Team PHenomenal Hope Brasil, it wasn’t different.

A proposta do projeto era uma loucura: treinar 11 meses para conseguir correr 75km. Olhando para trás, com a experiência que tenho hoje em corrida, no que vivi, li e conversei com outros atletas, entendo que o processo de amadurecimento para alguém se tornar um ultramaratonista leva muito tempo. Certamente, não recomendo a ninguém seguir o atalho e querer, de cara, tornar-se um ultramaratonista. Não é saudável, mental e fisicamente. Como dizem, a ignorância é uma benção mesmo. rsrs.

The concept of the project was insane: to train for 11 months for a 75km race. Looking back, with the experience I have in running today, with all that I have been through, all I read and all the talks I had with other athletes, I understand that the process of maturing for someone to become an ultramarathonist takes a lot of time. Of course, I would not recommend anyone to follow the shortcut to become an ultramarathonist. It is not healthy, mentally and physically. As they say, ignorance is a blessing indeed.

Apesar de nunca ter sido sedentária, a modalidade "corrida"nunca foi meu esporte. De forma preconceituosa, assumo, achava a corrida a opção do ex-gordinho, que nunca se deu bem com bola, do inseguro, que nunca se destacou em nada e, de repente, corre mais do que seus amigos, ou do carente, que não tem mais o que fazer em uma sexta à noite, e arruma uma turminha para correr no sábado de manhã. rsrs

Although I have never been sedentary, running has never been my sport. In a prejudiced way, I assume, I was tought that running was the option for the ex-chubby, who could never go well with sports using a ball, the insecure, who never stood out at all and suddenly runs more than his friends, or the needy, who has nothing else to do on a Friday night, and he arranges a group to run on Saturday morning.

E, como nessa vida a gente paga a língua mesmo, em pouco tempo me vi abdicando das extas-feiras, das festas, dos encontros de amigos, para o quê? Para correr. Eu, particularmente, sou muito disciplinada e focada em tudo que realizo. Não preciso amar algo para me dedicar a ele. Quando se trata de uma tarefa necessária, eu não me importo se gosto ou não. Simplesmente realizo. E, claro, com a corrida não foi diferente. Nunca gostei de correr, mas, a partir do momento que aceitei o desafio, eu simplesmente corria e entregava o meu treino. Não vou negar que, conforme vai-se evoluindo, você vai pegando gosto. Mas não consigo afirmar que a corrida virou uma paixão, porque, durante o ano todo, eu a tratei como uma obrigação.

I do not care whether I like it or not. I simply do it.

I soon found myself giving up on Fridays, parties, meetings of friends, for what? To run. I am particularly disciplined and focused on everything I do. I do not need to love something to dedicate myself to it. When it comes to a necessary task, I do not care whether I like it or not. I simply do it. And, of course, the race was no different. I never liked to run, but from the moment I accepted the challenge, I would just run and deliver my workout. I’m not going to deny that, as you see your evolution, you start enjoying it. But I cannot say that running has become a passion because, throughout the year, I treated it as an obligation.

Por conta do alto volume de treinos, em pouquíssimo tempo, me lesionei e tive uma fratura por stress nas tíbias. Algumas vezes a dor era tão forte que não conseguia nem caminhar. Em uma situação normal, sem pressão, eu simplesmente daria um tempo da corrida para o corpo se recuperar. Mas, com o relógio correndo contra mim, com poucos meses de treino, com os "75km martelando na minha cabeça", dia e noite, todas as vezes que a dor vinha, eu me desesperava, com medo da possibilidade de não evoluir a tempo do grande desafio.

Because I had to run lots of km during the week, in a very short time, I injured myself and had a stress fracture in the tibias. Sometimes the pain was so strong that I could not even walk. In a normal situation, without pressure, I would simply give the training a break for the body to recover. But with the clock running against me, with a few months of training, with the 75km pounding in my head day and night, every time the pain came, I despaired, afraid of the possibility of not evolving in time for the big challenge.

Para resolver as dores e as lesões, me consultei com todos os especialistas possíveis, tomei todos os remédios do mercado e comprei várias bolsas de gelo para as dores do pós-treino. Eu praticamente vivia entre ortopedista, fisioterapeuta e osteopata. Foram muitas, muitas consultas. Houve épocas em que melhorava e praticamente não sentia dor. Aí me empolgava nos treinos e logo machucava de novo. Essa montanha-russa durou quase o ano todo.

To resolve the pain and injury, I consulted with all possible experts, took all the medicines from the market and bought several ice packs for the post-workout pains. I practically lived between orthopedist, physiotherapist and osteopath. There were many, many inquiries. There were times when I improved and I practically felt no pain. Then I restarted with all of my energy on training and hurt again. This roller coaster lasted almost the whole year.

Faltando uns 3 meses para o grande desafio, após várias sessões de fisioterapia no Instituto Osmar de Oliveira, eu me sentia bem melhor. Estava criando confiança novamente e muito focada. Eu contava os dias e planejava quantos km eu tinha que evoluir a cada semana. Como o cronograma era curto, não podia falhar.

With three months left until the big challenge, after several physical therapy sessions at the Osmar de Oliveira Institute, I felt much better. I was rebuilding my trust again and was very focused. I counted the days and planned how many kilometers I had to evolve each week. As the timeline was short, it could not fail.

Como alegria de lesionada dura pouco, 10 dias antes da prova, em um treino de 4 horas na USP, senti uma dor estranha e muito forte no joelho (como uma faca entrando na lateral do direita). Acho que você pode imaginar o tamanho do meu desespero. A lesão na tíbia eu já havia aprendido a lidar, mas ganhar um problema novo a 10 dias era muito azar.

10 days before the challenge, in a training of 4 hours at USP (University of São Paulo), I felt a strange and very strong pain in the knee (like a knife entering in the right side). I think you can imagine the amount of my despair. The tibia injury I had already learned to deal with, but gaining a new problem within 10 days was very unlucky.

Fiquei arrasada e corri para o médico, que me diagnosticou com atrito da banda iliotibial. A solução mais rápida? Injeção de corticoide, anti-inflamatório e fisioterapia. Logo eu, que tenho pânico de agulha (nunca havia tomado nenhum injeção que não fosse vacina até então), tive que encarar essa. Fiquei na porta da farmácia dando voltas várias vezes antes de entrar, mas, por ser algo tão necessário, me rendi à agulha na reta final.

I had to face this one.

I was devastated and ran to the doctor, who diagnosed me with friction of the iliotibial band. The fastest solution? Injection of corticoid, anti-inflammatory and physiotherapy. Me, who is afraid of needles (I had never taken any injections that were not vaccine until then), I had to face this one. I stood at the pharmacy door circling several times before entering, but as it was so necessary I surrendered to the needle in the final stretch.

Minha confiança foi derrubada, mas eu tinha que me manter focada. Fui à fisioterapia todos os dias, treinava na bike e, pouco a pouco, comecei a me sentir melhor. Eu até estava ficando confiante de novo quando, 3 dias antes da prova senti uma dor no mesmo joelho, mas do lado de dentro. Fiquei em pânico, sem acreditar naquilo. Já não dava mais tempo de fazer uma fisioterapia intensa e o meu médico só poderia me atender na outra semana (aí já teria passado a prova).

My confidence was overthrown, but I had to keep focused. I went to physical therapy every day, I trained on the bike and, little by little, I started to feel better. I was even getting confident again when, 3 days before the final race I felt a pain in the same knee, but on the inside. I panicked, not believing that. I no longer had the time to do an intense physical therapy and my doctor could only see me the other week.

Sem saber o que fazer, decidi ir para um hospital me consultar com um ortopedista. O diagnóstico foi tendinite da pata de ganso. O médico era super conservador e ficou uns 10 minutos tentando me convencer a não correr os 75km. Ele me deu um certo sermão, enquanto eu tentava não chorar e ser educada com ele. Mas chegou um ponto que eu precisei ser clara com ele: “Deixa eu te explicar uma coisa. Eu treinei o ano todo para a prova. Eu tenho uma ligação emocional que não vai me deixar desistir disso agora. Você está perdendo o seu tempo. Eu não vim aqui para mudar a minha meta, mas para tomar algo forte que me dê uma sobrevida imediata para a corrida. Se você não me der, eu vou de hospital em hospital até achar alguém que me ajude.”

I have an emotional connection that will not let me give up now.

Not knowing what to do, I decided to go to a hospital to see an orthopedist. The diagnosis was goose leg tendinitis. The doctor was super conservative and stayed about 10 minutes trying to convince me not to run the 75km. He gave me a certain sermon while I tried not to cry and be polite to him. But it came to a point that I needed to be clear with him: “Let me explain one thing to you: I’ve trained all year for this challenge. I have an emotional connection that will not let me give it up now. You’re wasting your time. I did not come here to change my goal, but to take something strong that gives me an immediate survival for the race. If you do not give me something, I’ll go from hospital to hospital until I find someone to help me.”

Tomei outra injeção e ganhei uma receita de um anti-inflamatório mais potente do que o que estava tomando. Voltei para casa muito triste. Prestes a encarar o maior desafio da vida, eu estava com fratura por stress na tíbia, atrito da banda iliotibial e tendinite da pata de ganso.

I took another injection and got a prescription for a stronger anti-inflammatory than I was taking. I returned home very sad. About to face the biggest challenge of life, I was with tibial stress fracture, iliotibial band attrition and goose leg tendonitis.

Por incrível que pareça, no dia da prova, eu até me sentia melhor. Como estava sem treinar já há uns dias, não tinha dores. A poucos minutos da largada, eu estava muito nervosa. Simplesmente não acreditava em tudo aquilo que tinha realizado até aquele momento, duvidava um pouco do meu preparo e sabia que as próximas horas seriam muito difíceis.

You may not believe, on the day of the race, I even felt better. Since I had not been training
in a few days, I had no pain. A few minutes from the start, I was very nervous. I just did not believe everything I had done until then, I doubted my preparation and knew the next few hours would be very difficult.

Lembro do Ricardo tentando fazer graça para mim na largada, mas ele mesmo estava apavorado e acabei rindo da própria carinha dele de desespero. Eu apenas desejava largar, pois sabia que, assim que começasse a correr, ia conseguir focar e deixar o abalo emocional de lado. Finalmente a buzina tocou e partimos. De uma hora para outra, entrei na prova, foquei e já não estava mais abalada com o nervosismo. O primeiro trecho era na areia e achei tranquilo. Na sequência, veio a serra de Maresias, que é horrível, íngreme e longa. Porém, como eu já sabia o que esperar, eu me preparei para isso: sofri bem menos do que imaginei.

I remember Ricardo (my husband) trying to make me laugh at the start, but he himself was terrified and I ended up laughing at his own face in despair. I just wanted to let go, because I knew that as soon as I started to run, I would be able to focus and let the emotional concussion go. Finally the horn rang and we left. Suddenly, I entered the race, I focused and I was no longer shaken by the nervousness. The first stretch was in the sand and I found it easy. Then came the mountain range of Maresias, which is horrible, steep, and long. But since I already knew what to expect, I prepared myself for it: I suffered much less than I imagined.

Subidas nunca foram o meu forte. Mesmo caminhando, perco o ritmo. A maioria das pessoas subiu a serra caminhando, para se poupar para o resto da prova. Além do mais, chovia bastante e o chão estava escorregadio. Subi, subi, subi, até que vi, finalmente, uma placa: "verifique os seus freios". Foi a M-A- I-O-R alegria, pois isso significava que a descida havia chegado. E nas descida é só soltar o corpo ladeira abaixo. Recuperei bastante o meu tempo, descendo mais rápido, atenta ao chão escorregadio, mas sem medo de soltar o corpo. Lembro da música que estava tocando no ipod: “Don’t Stop Me Now” do Queen.

Climbing has never been my favorite part. Even walking, I lose the rhythm. Most people climbed the mountainside to save themselves for the rest of the race. Besides, it rained a lot and the floor was slippery. I went up, up, up, until finally I saw a sign, “Check your Brakes.” It was the B-I- G-G- E-S- T joy, for it meant that the descent had come. And on the descent, just let the body down. I regained my time a lot, descending faster, watching the slippery ground, but not afraid to let go of the body. I remember the song that was playing on the iPod: “Don’t Stop Me Now” by Queen.

Como alegria de lesionada dura pouco, ao final da descida, quando dei uma freada para fazer a curva em direção ao primeiro PC (posto de controle), senti uma fisgada muito forte no joelho. A sensação era de uma faca entrando pelo lado de fora do joelho cada vez que eu tentava correr. Ou seja, a mesma dor que senti na USP. Era o atrito da banda iliotibial me atormentando novamente.

As the joy of an injured person lasts little, at the end of the descent, when I braked to make the curve towards the first PC (checkpoint), I felt a very strong hook in the knee. It felt like a knife coming in from outside my knee every time I tried to run. That is, the same pain I felt at USP. It was the friction of the iliotibial band tormenting me again.

Por alguns segundos, fiquei totalmente em pânico. Não podia acreditar que a lesão nõa tinha melhorada. Tudo bem que fazia apenas 10 dias que estava em tratamento, mas eu vinha me sentindo bem melhor. O que eu não havia percebido é que, na verdade, nos últimos 10 dias, eu já vinha diminuindo muito o ritmo de treino (para poupar o corpo para a prova). Então é claro que eu não sentia dores, pois praticamente corria apenas de forma leve ou caminhava.

For a few seconds I was totally panicked. I could not believe the injury had not improved. I knew I had been on treatment for only 10 days, but I had been feeling much better. What I did not realize is that, in fact, in the last 10 days, I had already been decreasing the training running a lot (to save the body for the big race). So of course I did not feel pain because I practically ran only lightly or walked.

Ainda faltavam 65km para terminar a prova e eu já sentia uma dor insuportável. Comecei a pensar o que eu poderia fazer para contornar aquilo e lembrei que o médico havia me dito que o causador dessa lesão é o movimento repetitivo de alavanca da perna. Isso aumenta o atrito e causa a lesão. Ele exemplificou: uma pessoa sedentária faz essa alavanca, por exemplo, 200 vezes ao dia. Uma pessoa que treina como eu faz a alavanca 3000 vezes ao dia. É óbvio que o desgaste é maior.

I still had 65km to finish the race and I already felt an unbearable pain. I began to think about what I could do to get around it and remembered that the doctor had told me that the cause of this injury is the repetitive leverage of the leg. This increases friction and causes injury. He exemplified: a sedentary person makes this lever, for example, 200 times a day. A person who trains as me does the lever 3000 times a day. It is obvious that wear is greater.

Com essa informação guardada na cabeça, tive a ideia de evitar dobrar o joelho direito, pois, assim, não faria o atrito e não sentiria dor. Dei os primeiros passos com a perna direita reta e apenas alavancando com a esquerda e percebi que a dor amenizava. Pronto, era assim que eu ia correr os próximos 65km, meio torta, ainda com dor, mas, pelo menos, eu não desistiria da prova.

…at least I would not give up the race.

With this information stored in my head, I had the idea of ​​avoiding to bend the right knee, because, therefore, I would not do the friction and I would not feel pain. I took the first steps with my right leg straight and just levering with my left and realized that the pain softened. That’s how I was going to run the next 65km, still in pain, but at least I would not give up the race.

Em se tratando de corpo humano, nem tudo funciona como queremos. Às vezes eu acabava jogando peso na perna machucada, dobrando o joelho e doía muito. Mesmo eu travando a perna na sequência, a dor não passava na hora. E aí comecei a entoar um mantra para me acalmar: "a mente controla o corpo". Eu repetia sem parar. Não sei se era o mantra ou o corpo, mas a verdade é que, em muitos momentos, eu esquecia da lesão e não sentia nada.

When it comes to human body, not everything works as we want. Sometimes I ended up throwing weight on my injured leg, bending my knee and it hurt a lot. Even though I was locking my leg in sequence, the pain was not over. And then I began to chant a mantra to calm me, “The mind controls the body” I kept repeating. I do not know if it was the mantra or the body, but the truth is that, in many moments, I forgot the injury and felt nothing.

Quando completei 20km, eu comecei a me sentir muito mal do estômago. Era visível que ele estava estufado, pois dava para ver o inchaço pela blusa. Minha barriga começou a inflar e nada digeria. Como minha nutricionista havia dado 2 opções de suplemento com a mesma equivalência de carboidratos (2 bisnaguinhas e meia ou 1 carbogel manipulado de acordo com a minha composição corporal), eu decidi evitar a bisnaguinha e tomar o gel. Assim, me manteria suplementada a cada meia hora como planejado, mas conseguiria diminuir o inchaço até que tudo comido fosse digerido.

When I completed 20km, I began to feel very sick to my stomach. It was visible that it was stunned, because I could see the swelling through the blouse. My belly began to inflate and nothing digested. As my nutritionist had given 2 supplement options with the same carbohydrate equivalence (a bread or 1 carbogel handled according to my body composition), I decided to avoid the bread and take the carbogel. So I would keep myself supplemented every half hour as planned, but I could reduce the swelling until everything eaten was digested.

Segui tomando o gel, mas, mesmo assim, a barriga e o desconforto só aumentavam. Eu percebia que a comida estava na garganta, sabe? Não sei se essa indigestão foi fruto de nervosismo ou do Imosec que tomei antes da prova, ou dos dois juntos. Só sei que meu corpo não digeria mais nada.

I continued to take the carbogel, but even so, the belly and the discomfort only increased. I realized the food was in my throat, you know? I do not know if this indigestion was the result of nervousness or the Imosec (medicine for the intestine) I took before the race, or the two together. I only know that my body could not digest anything else.

Quando completei 30km, a minha equipe de apoio não me encontrou no PC. Isso significava correr até o km42 sem água e com apenas 1 carbogel extra, acompanhada de indigestão e dores terríveis no joelho. Comecei a pedir "doações" pelo caminho, e ganhei 1 gatorade e 1 pouco de água. Ao invés de me desesperar, naquele momento, enxerguei a situação como algo positivo. Pensei: "quando chegar no próximo PC, terei completado 1 maratona, com muita dor, muito mal estar e má suplementada. Isso só vai me fortalecer ainda mais.

When I completed 30km, my support team did not find me on the checkpoint. That meant running to 42km without water and with only 1 extra carbogel, accompanied by indigestion and terrible pain in the knee. I started asking for donations along the way, and got 1 gatorade and 1 little water. Instead of despairing, at that moment, I saw the situation as something positive. I thought, “When I get to the next checkpoint, I will have completed 1 marathon, with a lot of pain, a lot of bad health and poor supplements. That will only strengthen me even more.”

Eram 14km de areia apenas. Eu, as dores e nada. A certa altura fui tomar o gatorade e vomitei. Tomava água e vomitava. Nada parava dentro de mim. Então comecei a pensar como contornar aquela situação. Lembrei da minha nutricionista dizendo que mais do que seguir à risca o planejamento alimentar, eu tinha que escutar o meu corpo. Portanto, ao invés de me alimentar a cada 30 minutos como planejado, eu decidi me alimentar a cada 45 minutos, para tentar dar mais tempo à digestão.

It was 14km of sand. Me, the pains and nothing. At one point I took the gatorade and vomited. I drank water and vomited. Nothing could stay inside me. So I began to think about getting around that situation. I remembered my nutritionist saying that more than following food planning, I had to listen to my body. So instead of feeding me every 30 minutes as planned, I decided to feed myself every 45 minutes to try to give more time to the digestion.

A sorte foi que o Heitor, que estava fazendo apoio para o Ricardo de bicicleta, pode voltar e me dar um remédio para indigestão e água. Aquilo aliviou um pouco, mas longe de estabelecer o status quo.

My lucky break was that Heitor, who was supporting Ricardo by bicycle, could come back and give me medicine for indigestion and water. It eased somewhat, but far from establishing the status quo.

Nos momentos de maior desespero, eu entoava meu mantra e lembrava da razão daquilo tudo. Mentalizava que o meu propósito era muito maior que a minha dor, e que havia pessoas maravilhosas (pacientes, amigos e familiares) me esperando na linha de chegada. Era simplesmente inaceitável me render àquela adversidade. Eu seguia a cada passo me fortalecendo mais.

The mind controls the body.

In moments of greatest despair, I would chant my mantra and remember the reason for it all. I sensed that my purpose was far greater than my pain, and that there were wonderful people (patients, friends and family) waiting for me at the finish line. It was simply unacceptable to surrender to that adversity. I followed with each step strengthening myself more.

A minha playlist era a mesma dos treinos. Então, ao ouvir as músicas, buscava resgatar tudo que havia passado no último ano me preparando para o desafio, o que aquele gesto representava para os pacientes, quantas pessoas maravilhosas foram colocadas na minha vida, quantas mais se engajaram com o projeto. Lembrava da minha mãe sempre guerreira, dizendo que ia vencer a Hipertensão Pulmonar, pois ela era muito maior que o pulmão. Imaginava o que ela sentiria ao me ver cruzando a linha de chegada, quão
orgulhosa ela estaria se pudesse presenciar isso.

I remembered my mother was always a warrior…

My playlist was the same as I listened during the training. So when I listened to the songs, I tried to rescue everything I had spent in the last year preparing for the challenge, what that gesture represented to the patients, how many wonderful people were placed in my life, how many more committed to the project. I remembered my mother was always a warrior, saying that she would beat Pulmonary Hypertension, because she was much bigger than her lungs. I wondered what she would feel to see me crossing the finish line, how proud she would be if she could see it.

Pouco a pouco ia avançando, sozinha, refletindo… O mar me traz muita reflexão. Quando minha mãe morreu, eu e meu pai fomos para o RJ passar uns dias, e eu ficava horas na praia, sozinha, olhando para o mar. Como a prova tem muitos trechos à beira mar, foram várias horas refletindo sobre a vida e o propósito daquela corrida.

Step by step, I was advancing, alone, reflecting … The sea brings me much reflection. When my mother died, my father and I went to Rio de Janeiro for a few days, and I spent hours on the beach, alone, looking at the sea. As the event has many stretches by the sea, it was several hours reflecting on the life and the purpose of that race.

A cada km, o mal estar físico só aumentava. No km50, eu estava à beira de um colapso: muito inchada, sem conseguir me alimentar, com dores em tudo. Eu não percebia que a minha saúde estava debilitada. Realmente não passou pela minha cabeça que a minha vida poderia estar em risco.

Every km, I was getting worse. In the km50, I was on the verge of a collapse: very swollen, unable to eat, with pains at all. I did not realize that my health was so weak. It really did not came to my mind that my life could be in risk.

Acho que o fato de não admitir desistir me cegou. Eu sempre dizia que só pararia de correr se morresse. E levei à risca na prova. O meu pensamento sempre foi que aquilo tudo era para honrar e passar coragem aos pacientes. Eles não podem desistir, pois a desistência significa a morte. Eu, portanto, não poderia me dar esse "luxo. Eu tinha que vencer os meus limites, assim como os pacientes. Eu sabia que cruzar a linha os faria se sentir amados, representados e daria a eles um novo fôlego para continuar lutando diariamente. Eu precisava proporcionar isso a eles. Fazê-los entender que estou junto nesta luta, de corpo e alma.

…we are together in this fight, body and soul.

I think the fact that I did not admit to giving up blinded me. I always said that I would just stop running if I died. And I took it to the test. My thoughts have always been that it was all about honoring and giving courage to patients. They cannot give up, because giving up means death. I knew that crossing the line would make them feel loved, represented and would give them a new breath to continue fighting on a daily basis. I needed to provide this to them. Make them understand that we are together in this fight, body and soul.

Apesar de eu não estar correndo tão rápida, me encontrava muito ofegante. A Marina entrou para ser minha pacer nos últimos 25km e foi me acalmando. A entrada dela foi perfeita, pois pude fazer a maior parte da prova sozinha, com minhas divagações sobre a vida, mas, à beira de um colapso, pude delegar a alguém a preocupação com a prova. Lembro de falar para ela que ditasse o ritmo, e pedi apenas que me entregasse a tempo.

Although I was not running so fast, I was very breathless. Then Marina came to be my pacer in the last 25km and she started to calm me down. Her entrance was perfect, as I was able to do most of the race on my own, with my thoughts about life, but, on the verge of collapse, I was able to delegate some concern. I remember telling her to dictate the rhythm, and only asked her to get me to the finish.

Assim ela foi dando as coordenadas de quando correr, quando caminhar etc. Ela foi me incentivando, sendo solícita aos meus pedidos de água, comida… No km65, eu praticamente não conseguia mais falar. Estalava os dedos quando queria chamá-la e fazia o sinal do que queria: água, comida, baixar o ritmo etc. A dor era tanta que a minha vontade era cair deitada no chão. As articulações todas doíam, especialmente o quadril, pelo fato de ter corrido toda desequilibrada para minimizar a dor no joelho. A pele, de tão inchada (terminei a prova com 7kg a mais) parecia que ia rasgar, de tanto que sentia
esticada. Era como se o meu corpo não coubesse na minha pele. TUDO doía intensamente, do queixo aos pés, encharcados de lama e chuva. Era como se o inchaço não coubesse na minha pele.

She started giving the coordinates of when to run, when to walk etc. She was encouraging me, being solicitous for my requests for water, food. In the km65, I could hardly speak anymore. I snapped my fingers when I wanted to call her and make the sign of what I wanted: water, food, slowing down, etc. The pain was so bad that I wanted to lie on the floor. The joints all hurt, especially the hips, because I ran all unbalanced to minimize knee pain. The skin, so swollen (I finished the test with 7kg more) it seemed like it would rip, I felt stretched. It was as if my body did not fit on my skin. EVERYTHING ached heavily, from chin to foot, drenched with mud and rain. It was as if the swelling did not fit on my skin.

Diante de tanto sofrimento, eu apenas queria minimizar o tempo para tudo acabar. Mas eu simplesmente não conseguia mais correr. Os joelhos não dobravam, os braços e mãos estava inchados demais e eu não conseguia fazer o movimento para correr, e os meus pensamentos estavam todos desordenados. Às vezes eu chorava sem perceber, às vezes me perdia nas contas de quantos km faltavam. A sensação que eu tinha era de estar sendo levada, de alguma forma, sozinha, em uma praia cinzenta, chuvosa, sem enxergar o pórtico da chegada. Eu apenas ia, na esperança de, a cada passo, poder enxergar a razão de tudo aquilo: os pacientes.

…hoping that at every step I could see the reason for all this: patients.

Faced with so much suffering, I just wanted to minimize the time for everything to end. But I just could not run anymore. The knees did not bend, the arms and hands were too swollen and I could not make the movement to run, and my thoughts were all disordered. Sometimes I cried without realizing it, sometimes I got lost in the accounts of how many kilometers were missing. I was just going, hoping that at every step I could see the reason for all this: patients.

O infinito da praia era desesperador. As dores eram horríveis. Naquele ponto, já não era mais o joelho ou estômago. Era um mal estar geral, uma rigidez no corpo que, mais tarde, no hospital, descobri se tratar de algo muito sério e letal chamado rabdomiólise. Foi doloroso e inexplicavelmente transformador. Eu não pensei em desistir, mas desejava, a cada segundo, poder enxergar o pórtico de chegada, para poder abraçar todos.

The infinity of the beach was hopeless. The pains were horrible. At that point, it was no longer the knee or stomach. It was a general malaise, a rigidity in the body that later, in the hospital, I discovered if it was something very serious and lethal called rhabdomyolysis. It was painful and inexplicably transformative. I did not think about giving up, but I wanted every second to be able to see the finish line, so I could hug everyone.

E, assim, vencendo todas as barreiras, ao lado da Marina, que seguia carregando minha água, minha comida e me transmitindo coragem o tempo todo, avistei, de longe, uma pessoa acenando para nós. Era a Cris Uehara sorridente, feliz. Apesar de eu estar quase inconsciente naquele momento, lembro exatamente das palavras dela: tem um monte de gente te esperando lá. Foi o que bastou para eu entender que eu estava quase "lá", no fim da jornada, na cereja do bolo, no abraço e no sorriso que tanto sonhei.

And so, overcoming all the barriers, next to the Marina, who continued carrying my water, my food and giving me courage all the time, I saw, from a distance, a person waving at us. It was Cris Uehara smiling, happy. Even though I was almost unconscious at that moment, I remember exactly her words: there are a lot of people waiting for you there. It was enough for me to understand that I was almost there, at the end of the journey, in the cherry of the cake, in the hug and the smile that I dreamed so much of.

Poucos minutos depois, vi o Ricardo, meus amigos, a equipe de apoio, filmando e correndo comigo. Olhei para o relógio da prova e li "10 horas, 50 e poucos minutos". Nós tínhamos 11 horas para terminar e chegamos na risca. Foi um alívio.

A few minutes later, I saw Ricardo, my friends, the support team, filming and running with me. I looked at the test clock and read 10 hours, 50 minutes. We had 11 hours to finish and we hit the line. It was a relief.

Quando passei pelo pórtico, desabei a chorar, apoiada na grade. Eu nem tinha visto que os pacientes estava mais à frente na área coberta. Eu só chorava, acabada, com muita dor, física e emocional. Quando levantei minha cabeça, ouvi uma multidão gritando "Paula, Paula, Paula". Até hoje choro de lembrar. Lá estavam eles, a razão de tudo, a minha força nos 75km, os pacientes e familiares, que saíram de diversos locais do Brasil, apenas para nos prestigiar. Faltam palavras para verbalizar o que eu senti. A rigidez do meu corpo não me deixava mais dar um passo, a fortaleza da minha mente já havia
desmoronado, e eu chorava sem parar. Cada um deles se aproximou para me dar um abraço e agradecer.

There they were, the reason for everything…

As I passed the porch, I burst into tears, leaning against the grating. I had not even seen that the patients were further ahead in the covered area. I just cried, finished, with a lot of pain, physical and emotional. When I raised my head, I heard a crowd shouting “Paula, Paula, Paula,” I cry to remember. There they were, the reason for everything, my strength in the 75km, the patients and their families, who left many places in Brazil, just to support us. Words are missing to verbalize what I felt. The stiffness of my body no longer allowed me to take a step, the strength of my mind had already collapsed, and I cried without stopping. Each one of them approached to give me a hug and to thank me.

Sem dúvida, uma das emoções mais fortes que já senti. A hipertensão pulmonar levou a minha mãe para sempre, mas me trouxe muitas pessoas maravilhosas. Posso dizer que me senti inteiramente amada naquele momento, e só tenho a agradecer por ter tantas pessoas ao meu lado. Não foram apenas pacientes, mas familiares, amigos e pessoas que nem sabiam o que era hipertensão pulmonar até conhecerem o Team PHenomenal Hope Brasil. Não há nada mais incrível do que sentir a força da união e do amor. É transformador, acredite.

Undoubtedly, one of the strongest emotions I’ve ever felt. Pulmonary hypertension took my mother forever, but brought me many wonderful people. I can say that I felt totally loved at that moment, and I only have to thank for having so many people by my side. It was not only patients, but family members, friends and people who did not even know what pulmonary hypertension was until they met Team PHenomenal Hope Brazil. There is nothing more incredible than feeling the strength of unity and love. It’s transformative, believe me.

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Team PH BrazilPaula MenezesTeam PH Brazil2016 October race, Team PH Brazil

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